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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sem contrastes




Casas estreitas, unidas, geminadas. Parecem de mãos dadas. O lugar onde moro é um quarteirão de casas todas iguais. Elas têm a idade de um século. Moramos no Quarteirão dos Compositores - uma pequena vila dentro do Bairro de Østerbro, não longe do centro de Copenhague. Cada rua foi batizada com o nome de um compositor dinamarquês.

De minha janela olho as outras casas. Vou para a rua. Caminho e percebo o mundo pequeno, como se fosse um ninho. Trilhas miudinhas, um jardim de malvas, quase selvagem Há música dentro delas, são eles que estão compondo... ainda! Encontro o menino, a moça, a vovó, que me faz um sorriso. Aqui uma bola, ali a bicicleta. Trezentas e noventa e três casas. Trezentos e noventa e três universos. Dezenas de castelos de sonhos. Penso em amores ali encontrados.

Fachadas uniformes, sem monotonia. Cada moradia leva um traço de sua personalidade que a distingue de todas as outras: a cerca, a gérbera, um banco, o guarda-sol, a cerejeira em flor, as lanternas, o carrinho de nenê, a casa de passarinho, a roseira. Janelas sem grades, poucas cortinas, somente vidraças. Quase todas com moldura branca, ou verdes, algumas azuis. Do lado de dentro há um parapeito rente à vidraça, onde há espaço para colocar um candelabro, uma planta, um porta retrato. Ou, quem sabe, um vaso? A escadaria é iluminada, sinto o cheiro da madeira. Muitas luzes. Design dinamarquês.

Um lugar... Komponistqvarteret. Nada pomposo. Sem contrastes. Apenas bonito.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Caminhos


Eu acabara de chegar. Era hora de descobrir os mistérios e segredos desse arquipélago, onde a partir de então passaria a viver. Olhei ao meu redor. Vi uma cidade linda e faceira, debruçada por sobre o espelho azul das águas do Mar Báltico. As casas coloridas ao longo dos canais revelavam estilos e histórias de séculos passados, quando intrépidos marinheiros ancoravam ali suas embarcações. Segui em direção ao mar, sentindo na pele a brisa suave da maresia. A atmosfera mágica da portuária Copenhague me envolvia.

Era uma tarde morna de verão. Extasiada com o novo que me envolvia, senti que estava com a garganta seca e decidi tomar um café num bar da esquina. Atrapalhada, esbarrei numa mesa, onde uma senhora elegante comia um sanduíche e tomava um vinho tinto. Pedi desculpas com um forte sotaque, revelando imediatamente meu estado de imigrante. Ela, então, desculpou-me com um lindo sorriso. Não resistindo à simpatia encontrada, contei-lhe que era brasileira e que mal apenas falava o seu idioma.

Comovida, tomei meu café, enquanto esquecia-me em pensamentos. De repente, tornei a surpreender-me com a senhora dinamarquesa, pois ela veio até a minha mesa e, de forma natural e descontraída, cantarolou e sambou o ritmo contagiante de Garota de Ipanema, de Tom Jobim e de Vinícius de Moraes:

Olha que coisa mais linda, tão cheia de graça

É ela menina, que vem e que passa

Num doce balanço, a caminho do mar.

– Bossa Nova! – disse, retirando-se.

Como que hipnotizada, acenei com a cabeça. Falávamos, enfim, a mesma linguagem: a expressão clara e precisa de meu país latino, através da mais bela canção brasileira. Neste momento, deixei-me levar pelo embalo inconfundível da Bossa Nova, encontrando-me no limite impreciso entre o sonho e a realidade. Adornei minha alma, fortificando-me para prosseguir as cruzadas por estes espaços ainda tão estrangeiros. Metade de mim era saudade.

Ainda perplexa com o que acontecera, encontrei um guardanapo em cima de minha mesa, em cujas extremidades estava escrito o nome e o número do telefone da bailarina até então desconhecida. Ela o havia colocado ali, sem eu perceber. Em polvorosa, corri atrás dela para agradecer o seu gesto, não obstante, havia sumido por entre a multidão.

Tornei a olhar ao meu redor. O castelo à beira do cais parecia encantado, como se ali dormisse – em cima da ervilha – uma princesa de verdade.

Crônica reduzida - premiada no Concurso da Biblioteca Raízes, Genebra.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Bike Copenhagen




Ela é azul-parda. Silenciosa, evoluída e linda. Eu a trato com muito carinho. É veloz, leve e elegante, design dinamarquês. Tem um cesto na frente, onde posso colocar comprinhas e um livro. Nós nos entendemos perfeitamente, ela e eu. Na verdade, foi amor a primeira vista. Foi! Quando a vi, não pude resistir: esta é a bicicleta que quero. Ela me concede uma sensação de liberdade indescritível. Andar de bicicleta é pelo menos tão emocionante quanto andar de avião.

Em Copenhague a bicicleta se tornou um símbolo de bem-estar, caracterizando a cidade plana e limpa, oferecendo ciclovias maravilhosas. Um terço da população vai ao trabalho de bicicleta, o que significa também menos carros rodando e poucos congestionamentos. Na verdade, Copenhagen é um paraíso para quem gosta deste meio de transporte. Há ciclovias largas e bem cuidadas por toda a cidade. Naturalmente há também sinaleiras e regras a observar. Embora muitos ciclistas sejam tidos como atrevidos, a porcentagem de acidentes é relativamente baixa.

Eu ouso complementar. São poucas as cidades em que a bicicleta é tida como um meio de transporte diário. Não é incomum em Copenhague que um político vá ao trabalho com a sua - de terno e gravata. Andar de bicicleta é tão natural como o ar que respiramos. Faz parte da vida. É personalidade.


Veja também: Copenhagen cycle chic