quarta-feira, 8 de outubro de 2014


Viajar para Portugal é um pouco como voltar para casa. Este país é a nossa terra-mãe. Nossa herança. Fomos para a Ilha da Madeira: a pérola verde do oceano, a noiva dos ventos, a ilha da eterna primavera, a filha do vulcão. É impossível não se apaixonar. A exuberância de sua flora é incomparável. Eu me emocionei com as cores, com as espécies, com folhas verdes, com frutas que comia quando menina e que desapareceram de nossos jardins. Reencontrei as plantas que minha avó cultivava. Buganvílias de várias cores se debruçam por sobre muros e telhados. Tomei vinhos e degustei uma culinária deliciosa, ouvindo a poesia de um fado. Vi paisagens encantadoras onde crescem bambus, mimosas, papiros, araucárias, maracujás, amoras e goiabeiras. Por todos os lados há agapantos, hortênsias, begônias, azaleias e camélias. Some todas as flores que você conhece e multiplique dezenas de vezes – e ainda sobrarão espécies para contar. Montanhas gigantescas cortam o céu sempre azul da Madeira - ilha beijada por águas azuis-turquesas. Encontrei pessoas amáveis que ficavam felizes em saber que eu era brasileira. Então... podemos falar português. Sim, como não! O que mais forte poderia nos unir? Falamos o mesmo idioma, o fio atávico que corre em nossas veias. E já somos amigos, incondicionalmente. Portugal, terra linda!

segunda-feira, 25 de agosto de 2014


Instituto de Educação Ivoti. Lembro-me tão bem quando vim morar nesta casa grande. Ah, como tudo era magnífico. A começar com os jardins. Havia muito espaço para descobrir e muitas pessoas para cativar. Confesso, eu me sentia uma formiguinha a andar pelos corredores que eram feito estrada, larga, longa e florida. Pelos vitrais a luz se aconchegava e sempre, sempre permitia que víssemos o azul do céu quando estávamos a caminho do saguão. E à noite eu tropeçava pela lisa cerâmica na tentativa de ver as estrelas. O lugar onde eu iria estudar era, verdadeiramente colossal e, diante dele, tudo em mim era fragilidade e inquietação. Me sentia um tantinho aventureira, todavia, uma metade de mim era pura timidez, regada a olhares furtivos e a voz embargada de emoção. Encabulada eu via, aqui e ali, pequenos grupos de estudantes que conversavam em voz alta e lembro também da euforia do reencontro dos que já se conheciam. Na sala de estudos e nos quartos haviam as alunas responsáveis, uma espécie de tutores. E eu era novata obediente em excesso, quase súdita. Os sentimentos, que eu nem ouso caracterizar, simbolizava-os em lindas caligrafias, imprimidas em papel de seda – algo que chamávamos de carta. Relatos que nunca eram menores de cinco páginas. E por falar em tutores, havia muitos deles no internato – até mesmo, chefes de mesa. E, neste contexto retangular formado por oito pessoas, aprendi – já na primeira refeição - uma palavra nova: Fitchei! Esse vocábulo, inexistente em todo e qualquer dicionário da Língua Portuguesa, não carecia de explicações. Em sua escrupulosa existência, desconhecia-se a sua origem. Todavia fazia parte do patrimônio da escola e era, ao nossos olhos, universal. Fitchei exigia um complemento, algo como um objeto direto que... talvez no final da refeição, passaria a ser um substantivo abstrato. Fitchei o que ? A sobremesa! Fitchei a carne, fitchei o bolinho. Eu fitchei alguma coisa. Esta palavra, em sua classificação gramatical, era um verbo que jamais seria intransitivo, pois nós fitchávamos sempre alguma coisa, uma provável sobra, com a qual supríamos emoções e fomes. Em pouco tempo, eu haveria de entender que “os velhos” eram ninguém mais do que nossos professores, independente da idade deles.

Ao cair da tarde, depois da janta, você levava o violão e, num sorriso brejeiro, me convidavas para ver o anoitecer nas escadarias da cancha de esportes. E tu interpretavas Gil com tamanha perfeição... Dedilhavas Blowin in the Wind e eu cantarolava a letra que na época eu sabia de cor. Bob Dylan era um de nossos favoritos. Lembras? Sim, éramos jovens e em nossos corações morava toda a esperança do mundo e acreditávamos encontrar no vento as respostas para todas as nossas perguntas. Tudo, tudo em nossas vidas ainda estava por acontecer. 

Hoje você está voltando para este lugar que um dia foi a nossa casa. Foi aqui que tecíamos a teia de nosso futuro. Num dia como hoje, estamos com o coração no passado e por um momento fugaz, somos a mesma turma novamente. Encontramos em cada abraço o repouso da saudade... a embriaguez da emoção e a quebra dos silêncios. Reencontrar você é contemplar o passado, intensificar o presente. Algum dia volto para lhe rever e nosso encontro será colorido e reluzente e então poderei me desfazer de toda esta bagagem de lembranças. E em contradança, haveremos de transformá -lo em risos e em palavras. Em gritos de felicidade. 

 Neste momento em que estás lendo minhas palavras, talvez eu esteja parada no cais do porto em Copenhague. Quem sabe, uma brisa marítima levará um pouco de mim para você. Ela acariciará sua pele e lhe dirá que... se um dia lhe amei, hoje lhe amo. Em sussurros dirá que, se um dia nos separamos, hoje quero lhe reencontrar. O vento lhe dirá que… eu seria imensamente pobre se nunca tivesse cruzado em seu caminho.

terça-feira, 13 de maio de 2014


Biblioteca – paredes que guardam histórias. Prateleiras abarrotadas de livros, construtores de sonhos. Cada volume, um universo. Cada título, uma viagem. É uma silenciosa sala, inaudíveis vozes narram episódios e aventuras. As estantes formam um mosaico de contos, crônicas e romances. Obras herdadas, recebidas. Ensaios escritos para mim, feito dádivas. Mundos inventados. Infinitudes. Tão plenos. Envolventes. Tão livros. Resmas de folhas encadernadas contém deliciosas palavras, e são acessíveis. Algumas vezes, se apresentam trágicas, ou tristes. Palavras figuradas, esculpidas, manuseadas. Encontro-me com Márquez, Drummond, Clarice, Saramago, Cecília, Allende e tantos outros. Autores e sua arte. Uma multidão de personagens habita o aposento. Sinto que estão ali... ouço murmúrios misteriosos, falas e risos. Essa gente toda, em inconfundíveis cenários: Alices Bastians José Arcádios Estebans Anas Claras. Ferminas e Florentinos. Personagens transbordam das histórias fabricadas e despertam fábulas. Por entre os volumes já um pouco amarelados, há dragões, cavalos, príncipes, duendes, magos e bruxas. Eragon e Saphira. Seres mágicos espalham seus poderes em algum tempo... antes existido, e o agora. Leituras a meu dispor. Leituras inesquecíveis a meu dispor. Biblioteca – depósitos de histórias. O livro

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Levada pelas ondas. Perdeu-se do mar. 
Um pouco azul, algumas linhas marrons, 
ou branco navajo. 
Sua forma arqueada - quase oval - 
espelha na água cristalina 
uma perfeita silhueta. 
Estava lá... airosa.
A concha.
Vênus, nas rochas jogada. 
Pelas ondas – de seu mar. 


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Inverno que se demora -
debruça preguiçoso na parapeito da janela. 
Disse-lhe: vai embora! 
Riu-se de mim... Adia! 
Busco, então, flores para dentro de casa. 
Jacintos florescem devagarinho - a cor de meu dia!


domingo, 12 de janeiro de 2014

"Brasileiro quando fala... parece que está a cantar!" 
O taxista que nos levou do hotel até o aeroporto de Lisboa estava ouvindo no rádio uma entrevista, e eu, imediatamente, pude reconhecer a voz do poetinha. Então - que delicia! - falamos de Vinícius de Moraes. O motorista tanto contava do poeta brasileiro, de seus sonetos, do amor que tinha pelas mulheres, da Bossa Nova, de Tom... E eu me encantava cada vez mais com seu largo conhecimento e com seu entusiasmo pelo escritor. Ah... eu poderia ter ficado no taxi ainda por horas a falar de poesia... e, quem sabe, subir e descer as sete colinas de Lisboa, demorar-me na Baixa Pombalina, perambular pela Rua Augusta e me perder entre as ruelas da capital lusitana milenar. E logo ali admirar o rio... que está por se entregar ao mar. O Tejo.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

Quero andar pelas ruas e ver as cores. 
Vou por um atalho e cruzo todos os caminhos possíveis. 
Sinto, desse modo, o ritmo das coisas e o pulsar da vida. 
Assim, meu trajeto estará cheinho de histórias que quero contar.


A casa amarela. Lembrou-me Van Gogh. 
Se a visse, Vincent certamente a pintaria. 
Sozinha, entre bétulas e carvalhos, 
cintila à luz do sol e enche a vida de quimeras. 
Ao observá-la, me senti como o pintor holandês – 
o momento inflamou em alegrias. 
Como a segredar, a pequenina casa passou-me sua energia. 
Uma casa amarela no meio do (meu) caminho verde. 
Intensa tonalidade. Singela.



Bailarina mulher. 
Ou seria menina? 
Dança na ponta dos pés. 
 Faz piruetas... é graciosa
dengosa,
leve, como uma borboleta. 
E olhe, como rodopia. 
Depois, levanta os braços... 
e espia! 


Essa cidade... é como se fosse uma casa para mim. E, muitas vezes, ao passear no cais do velho porto, penso em H.C. Andersen. É como se estivesse a passear comigo pelos antigos quarteirões. Seguimos, pois, suas pegadas em ruas medievais, o contista e eu. Atravessamos a praça do rei e nos demoramos em conversas na beira do cais. Aqui o poeta gostava de ficar, pois amava-o fascinado. Tudo é história. Os velhos lampiões. Os barcos. As casas... o mar. Para mim é poesia.


Depois da queda haverá o despertar... 
e a dor se transformará em felicidade. 
Depois da decepção, surgirá o deslumbramento. 
E sonhos renascerão... em suave esperança. 
Então existirá a procura... o doce encontro. 


Porque saio para fotografar... já inquieta. Tomo a direção do Jardim Botânico. O caminho está ladrilhado de encontros. Neles procuro-me. Palavras rabiscam figuras em minha cabeça. Escolho algumas para falar daquilo que já não consigo guardar. A folha rodopia com o vento e me fez lembrar do poema que gostaria de ter escrito - mas que não sei decifrar. Então, o silêncio em mim é interrompido pelas vivas vozes das plantas do parque. As flores, os pinheiros, os carvalhos e as faias, arbustos e ervas... tudo está a me falar. Olho para trás e vejo uma flora inteira a me contar coisas. Fascinada, observo a variedade de suas formas essenciais. O canto é matizado. A lente procura o macro, explora, experimenta. E eu me encontro neste muro intransponível.. o da emoção. O parque... tão cheio de nós. Metamorfose e troca.