quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Casa verde

Celina tomou o cuidado para não escolher uma tonalidade muito forte para pintar as paredes de sua casa, preferiu uma matiz que deixasse transparecer um filete de azul em meio ao verde, quase como um verde-jade. Era uma gradação um pouco mais escura que a esmeralda e mais clara que o verde-broto. A nuança refletia vitalidade e harmonia.

A casa verde aninhava-se em meio à copiosa vegetação e dela quase não se destacava. Era como se tivesse brotado da terra, feito flores e arbustos. Parecia ter sido semeada ou plantada, para estar justo ali, naquele lugar e em nenhum outro. Por um instante, eu podia imaginar uma casa com raízes, fortemente presa ao solo. Poderia pensar num fundamento feito tronco; e aposentos, como se fossem ramos; um telhado, feito folhas. A casa verde era um sobrado com a cor da natureza, sereno e confortável. Contudo, Celina optou em manter a cor branca para as venezianas e para as portas. Elas receberam novas pinceladas de branco clean, com o intuito de disfarçar a desbotadura que foi adquirida durante os anos de existência da Casa Rosada – injúrias que o tempo elabora e marca. As venezianas, em sua alvura, lembravam sorrisos que iluminavam a pele verde do sobrado. Janelas convidativas, estavam sempre abertas. Ciprestes formavam uma cerca viva que a separava da estrada. A moradia não tinha portão nem grades. Era uma casa verde e livre. Sem fronteiras.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Amoroso

O rio banha suas margens
em suaves murmúrios, 
feito um amante cuidadoso. 
Beija as pedras imóveis,
e demora-se em seu liso leito. 
Sem pressa, espalha suas águas em largos 
e doces lençóis  espelho polido. 
Solista, o rio delira sua ária ao vento
e se vai. 
Flui, agora veloz, a cantar
 e haverá de se perder, 
haverá de se perder
(de amores)
pelo mar.


Macabéa

Macabéa é inocente, de identidade reprimida, um risquinho de gente. É menina nordestina, pobre guria que veio ao Rio de Janeiro em busca de trabalho. Existência de miséria, órfã de pais, de sonhos e de ambições. Todavia, tem uma certeza, a certeza desesperada de não ser ninguém. Com seu rosto desfigurado, magra, consome cachorro quente. Um imenso nada a rodeia. É carente de tudo, até de palavras. E de um ser humano. Macabeazinha da cartomante. O seu benzinho, sua florzinha, a coisinha engraçadinha: sua filhinha. Nunca antes sentira tamanho carinho e, de repente, é concedido em forma de furacão. Agora sim: Macabéa está grávida - grávida de futuro. Ao sair da casa da cartomante, está embriagada de sonhos. No entanto, ali mesmo, numa rua qualquer, tudo é desfeito. Desejos roubados. O fiapo de esperança e todo o arrebatamento são destruídos para sempre. Um aborto. A Hora da Estrela. Ah, menina! Que metáfora de nossa realidade nas páginas desse romance, querida Clarice. Macabéa – menina mulher – em nós espelhada. 
Somos tantas!


Eterno

Margeio os lagos ao entardecer. Há dois caminhos paralelos, ladeados por castanheiros: um para pedestres, outro para ciclistas. E, mais abaixo, rente ao lago, há uma larga plataforma, na qual as pessoas passeiam, sentam para conversar, para ler, para pensar ou simplesmente para tomar sol e ficar à toa.  Prédios centenários, com belíssimos apartamentos, exibem suntuosas sacadas por toda a extensão. Olho para os lagos. Agora há centenas de pequeninos cristais distribuídos por sobre as ondas – é a luz que cintila. Uma comitiva elegante de cisnes – em macias plumagens – está a nadar em fileiras pelo azul das águas. Os cisnes nadam pelas águas de forma suave e leve, como se fossem pétalas brancas que desfraldam ao vento. Depois se espalham novamente e comem plantas aquáticas que pescam lá do fundo do leito. Por encantamento, um casal de cisnes enamorados começa a cortejar. Até parece que sabiam que eu queria fotografá-los. Por estas cenas, na verdade, eu havia esperado já de longa data. Em delicado ritmo, os cisnes nadam, um em frente ao outro, e se aproximam com ternura: surge assim, a forma perfeita do amor. Em amável e expressiva linguagem, dançam e se tocam. E que curioso, um casal de cisnes jamais se separa.
Irremovíveis afetos.


Casebre

Uma casa em miniatura, com janela, porta e tudo. Lá dentro vovó Elisabeth lavava roupas. O tanque com água corrente era imensurável aos meu olhos de menina. Parecia, isso sim, uma piscina, onde as pétalas da flor de bananeira navegavam. Pétalas se transformaram em canoas e dentro delas estavam as nossas bonecas. Bonecas feitas de sabugo de milho e com as sobras das costuras de mamãe – nossos bebês. Muitos anos se passaram. Depois de tanto tempo, o casebre ainda está lá – de paredes sombrias e tristes. O tempo há muito rasgou suas tábuas caiadas. E eu garatujo a nitidez de minha infância: as bonecas continuam a navegar na pétala da flor de bananeira. E vovó, cansadinha, está a esfregar a roupa na minha piscina. É belo o passado!


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Alameda

Ao chegar naquela rua, reduzi o passo. Árvores majestosas estavam enfileiravam na alameda, täo airosas. E lá bem adiante, já quase invisível, estava o mar. Assim olhando, todas as árvores pareciam iguais. Mas não eram. Percebi que cada qual tinha caroços diferentes em seu tronco. As podas haviam deixado marcas salientes. Pensei na dor ali guardada e a seiva escorrida, feito lágrima. Em sua quietude, as faias fazem da rua um parque. E, por um breve momento, invejei suas vidas sedentárias, suas raízes fundas, seu apego... em contrapartida, ao forasteiro em que me transformei. Então deixei-as. Segui por entre o casario e andei por outras ruas, nessa tarde ainda de verão, enquanto as palavras de Mia Couto soavam aos meus ouvidos: o coração... o coração tem sempre outro pensamento.


Árvores

Ao redor de tudo – sempre perto – estão os campos verdes. É lá onde os quero-queros fazem seus ninhos, onde árvores centenárias continuam a fazer sombra, onde galhos enrugados e cheios de musgos sustentam a arquitetura do joão-de-barro. Dignas, como velhas senhoras, as árvores não se deixam abater pela crueza dos anos, nem pela força do clima. Enraizadas no solo-mãe, suportam invernos ventosos e se renovam com o vigor das primaveras. Troncos ásperos expõem seus ramos, feito braços esticados, feito braços sempre abertos, onde a seiva corre em veios, onde há vida. Reencontro minhas árvores e a parte de mim que nelas ficou. Descubro que a saudade, adormecida-acordada é maior do que eu calculava, bem maior do que eu supunha. Então (eu poderia jurar!) é como se elas por mim tivessem esperado, como se soubessem de minhas demoras; como se tivessem percebido minha ausência. Talvez, por que nossa fidelidade sempre fora perene. Figueiras-da-pedra, açoita-cavalos, pinheiros, eucaliptos, coqueiros, umbus, paineiras, e patas-de-vaca. Seres sedentários e mudos. Ouvintes e receptivos, meus amigos. É como se ouvisse em sussurro: saudades-adormecidas-acordadas.



Xilogravuras

Casas de alvenaria e de madeira pontilham a estrada principal. Estão embrulhadas em arbustos, em flores e em arvoredos, protegidas do sol e dos fortes ventos. Videiras e madressilvas invadem as cercas e muros em apegos quase selvagens, em envolvimentos quase afetivos. Laços e nós, a densa folhagem das plantas trepadeiras agasalham caramanchões e paredes. E, nos telhados, as chaminés de zinco se erguem, se esticam, expelindo a fumaça dos fogões a lenha. São valentes soldados que espiam por sobre as telhas de barro, observam, documentam e testemunham os acontecimentos da aldeia. Eles cuidam das propriedades como se fossem vigias, como se fossem fiéis sentinelas. Pelas venezianas abertas, o cheiro agreste da terra lavrada invade os aposentos, onde vidas são geradas. Em fábulas cotidianas, personagens procuram por sonhos e por amor. Ora suas vidas são beijadas pela felicidade, ora flageladas por dolorosas decepções. Por vezes, a existência é marcada em compassos fortíssimos, outras vezes em movimentos piano, como numa sinfonia. Há que ser flexível para se moldar. As casas do Morro são xilogravuras carimbadas em minhas lembranças, talha por talha. Xilogravuras gravadas em minha memória.


Aldeia

Verde-floresta é a cor das montanhas. Dourado-escuro é o solo, onde germina o milho, os pastos e os legumes. As roças são híbridas e de vários tamanhos, de muitas cores. A terra cultivada é como uma colcha de retalhos, estendida por sobre o relevo acidentado dos minifúndios. Tardes preguiçosas, quentes e úmidas se arrastam feito tartarugas pelas lavouras, por meu corpo, pela aldeia. A poeira da estrada se espalha no ar, ilustrando-o com partículas sólidas, como se fosse papel de parede; marrons petit poás. O canto das cigarras, em ricos decibéis, ecoa pelo espaço avolumado de sol. Então, é como se o calor soasse, como se aumentasse mais um pouco, como se entrasse pelos ouvidos, como se rastejasse pelo assoalho. Poderosas nuvens, quase dramáticas, borram de branco o azul do céu. De menina, naquele tempo, eu adivinhava as formas das nuvens, adaptava-as à minha imaginação. Eram elefantes que eu enxergava lá em cima, corações, ovelhas, um rosto. Via muitas feições nas nuvens, algumas verdadeiras, outras surreais.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Livros

Biblioteca – paredes que guardam histórias. Prateleiras abarrotadas de livros, construtores de sonhos. Cada volume, um universo. Cada título, uma viagem. É uma silenciosa sala, inaudíveis vozes narram episódios e aventuras. As estantes formam um mosaico de contos, crônicas e romances. Obras herdadas, recebidas. Ensaios escritos para mim, feito dádivas. Mundos inventados. Infinitudes. Tão plenos. Envolventes. Tão livros. Resmas de folhas encadernadas contém deliciosas palavras, e são acessíveis. Algumas vezes, se apresentam trágicas, ou tristes. Palavras figuradas, esculpidas, manuseadas. Encontro-me com Márquez, Drummond, Clarice, Saramago, Cecília, Allende e tantos outros. Autores e sua arte. Uma multidão de personagens habita o aposento. Sinto que estão ali... ouço murmúrios misteriosos, falas e risos. Essa gente toda, em inconfundíveis cenários: Alices Bastians José Arcádios Estebans Anas Claras. Ferminas e Florentinos. Personagens transbordam das histórias fabricadas e despertam fábulas. Por entre os volumes já um pouco amarelados, há dragões, cavalos, príncipes, duendes, magos e bruxas. Eragon e Saphira. Seres mágicos espalham seus poderes em algum tempo... antes existido, e o agora. Leituras a meu dispor. Leituras inesquecíveis a meu dispor. Biblioteca – depósitos de histórias. O livro.



domingo, 16 de fevereiro de 2014

Concha

Levada pelas ondas. Perdeu-se do mar. 
Um pouco azul, algumas linhas marrons, 
ou branco navajo. 
Sua forma arqueada - quase oval - 
espelha na água cristalina 
uma perfeita silhueta. 
Estava lá... airosa.
A concha.
Vênus, nas rochas jogada. 
Pelas ondas – de seu mar. 


domingo, 12 de janeiro de 2014

Português

"Brasileiro quando fala... parece que está a cantar!" 
O taxista que nos levou do hotel até o aeroporto de Lisboa estava ouvindo no rádio uma entrevista antiga, e eu, imediatamente, pude reconhecer a voz do poetinha. Então - que delicia! - falamos de Vinícius de Moraes. O motorista tanto contava do poeta brasileiro, de seus sonetos, do amor que tinha pelas mulheres, da Bossa Nova, de Tom... E eu me encantava cada vez mais com seu largo conhecimento e com seu entusiasmo pelo escritor. Ah... eu poderia ter ficado no taxi ainda por horas a falar de poesia e, quem sabe, subir e descer as sete colinas de Lisboa, demorar-me na Baixa Pombalina, perambular pela Rua Augusta e me perder entre as ruelas da capital lusitana milenar. E logo ali admirar o rio, cujas águas estão por se entregar ao mar. O Tejo.